segunda-feira, 25 de outubro de 2010

COESÃO SEQUENCIAL



           A coesão sequencial, como indica o próprio nome, é responsável pela ordem, sequência, continuidade do texto, pode ser estabelecida por meio da coesão sequencial temporal e da coesão sequencial por conexão. 

  COESÃO SEQUENCIAL TEMPORAL
  
        Indica o tempo dos fatos narrados em um discurso, a partir da ordenação linear dos elementos, de expressões que indicam continuação das sequências temporais, das partículas temporais e da correlação dos tempos verbais.
           Assim, a sequenciação temporal pode ser obtida por:

1.          ordenação linear dos elementos - é o que torna possível dizer

                  Vim, vi e venci.
      e não
                  Venci, vi e vim.
      ou
                  Levantou cedo, tomou banho e saiu.
      e não
                  Saiu, tomou banho e levantou.

2.          expressões que assinalam a ordenação ou continuação das sequências temporais:

                 Primeiro vi a moto, depois o ônibus.
                Os capítulos anteriores tratam da eletrostática: agora falaremos da eletrodinâmica, deixando os problemas do eletromagnetismo para os próximos.

3.          partículas temporais:

                 Não deixe de vir amanhã.
                 Irei ao teatro logo à noite.

4.          correlação dos tempos verbais:

                 Ordenei que deixassem a casa em ordem.

                 Ordeno que deixem a casa em ordem.

                 Paulo não chegou ainda embora tivesse saído cedo.

                 O que ele dissesse estaria certo.

   COESÃO SEQUENCIAL POR CONEXÃO
     
     Expressa a interdependência semântica existente entre uma sentença e outra por meio de pausas e conectores - estes não  só unem as partes do discurso como também norteiam a argumentação.
  
Relações lógico-semânticas

   relação de  condicionalidade ( se p então q) - expressa-se pela conexão de duas orações, uma introduzida pelo conector se ou similar (oração antecedente) e outra por então, que geralmente vem implícita (oração consequente). O que se afirma nesse tipo de relação é que, sendo o antecedente verdadeiro, o consequente também o será. Vejam-se os exemplos:

   Se aquecermos o ferro, (então) ele se derreterá.
   Caso faça sol, (então) iremos à praia.

   relação de causalidade (p porque q) - expressa-se pela conexão de duas orações, uma das quais encerra a causa que acarreta a consequência contida na outra. Tal relação pode ser veiculada sob diversas formas estruturais, como:

           O torcedor ficou rouco porque gritou demais.
                  consequência                causa              
           O torcedor gritou tanto que ficou rouco.
         causa                              consequência
          O torcedor gritou demais;  então  (por isso)      ficou rouco.
          Como tivesse gritado demais  , o torcedor ficou rouco.
          Por ter gritado demais
                  Causa

   relação de mediação - que se exprime por intermédio de duas orações, numa das quais se explicitam o(s) meio(s) para atingir um fim expresso em outra:

    O jovem envidou todos os esforços para conquistar / o amor da garota dos seus sonhos.
                                     meio                                                            fim

           Embora, do ponto de vista lógico, a relação de condicionalidade (implicação) englobe as de causalidade e de mediação, são apresentadas separadamente por razões didáticas.

   relação de disjunção - se expressa através do conectivo ou. Esse conector, porém, é ambíguo, correspondendo ora à forma latina aut, com valor exclusivo (isto é, um ou outro, mas não ambos), ora à forma vel com valor inclusivo (ou seja, um ou outro, possivelmente ambos).

             Você vai passar o fim de semana em São Paulo ou vai descer para o litoral? (exclusivo)
             Todos os congressistas deveriam usar crachás ou trajar camisas vermelhas. (inclusivo: e/ou).

   relação de temporalidade - por meio da qual, através da conexão de duas orações, localizam-se no tempo, relacionando-os uns aos outros, ações, eventos, estados de coisas do "mundo real" ou a ordem em que se teve percepção ou conhecimento deles. O relacionamento temporal pode ser de vários tipos:

a.                    tempo simultâneo (exato, pontual):
             Quando /Mal / Nem bem / Assim que / Logo que / No momento em que ......  o filme começou, ouviu-se um grito na plateia.
           
b.                    tempo anterior/posterior:
             Antes que o inimigo conseguisse puxar a arma, o soldado desferiu-lhe uma saraivada de tiros.
             Depois que Maria enviuvou, ele preferiu viver na fazenda de seus pais.

c.                    tempo contínuo ou progressivo:
              Enquanto os alunos faziam os exercícios, o professor corrigia as provas da outra turma.
              À medida que os recursos iam minguando, aumentava o desespero da população do vilarejo isolado pelas inundações.

   relação de conformidade - expressa-se pela conexão de duas orações em que se mostra a conformidade do conteúdo de uma com algo asseverado na outra:

             O réu agiu conforme o advogado lhe havia determinado.

   relação de modo - por meio da qual se expressa, numa das orações, o modo como se realizou a ação ou evento contido na outra. Exemplo:

             Sem levantar a cabeça, a criança ouvia as reprimendas da mãe.
             Como se fosse um raio, o cavaleiro disparou pela campina afora.

   Relações discursivas ou argumentativas

   conjunção - efetuada por meio de operadores como é, também, não só...mas também, tanto...como, além de, além disso, ainda, nem (=e não), quando ligam enunciados que constituem argumentos para uma mesma conclusão. Exemplo:

             João é, sem dúvida, o melhor candidato. Tem boa formação e apresenta um consistente programa administrativo.
         Além disso, revela pleno conhecimento dos problemas da população. Ressalte-se, ainda, que não faz promessas demagógicas.
             A reunião foi um fracasso. Não se chegou a nenhuma conclusão importante, nem (= e não) se discutiu o problema central.

   disjunção argumentativa - trata-se aqui da disjunção de enunciados que possuem orientações discursivas diferentes e resultam de dois atos de fala distintos, em que o segundo procura provocar o leitor/ouvinte para levá-lo a modificar sua opinião ou, simplesmente, aceitar a opinião expressa pelo primeiro:

             Todo voto é útil. Ou não foi útil o voto dado ao rinoceronte "Cacareco" nas eleições municipais, há alguns anos atrás?

   contrajunção - através da qual se contrapõem enunciados de orientações argumentativas diferentes, devendo prevalecer a do enunciado introduzido pelo operador mas (porém, contudo, todavia etc.).

             Tinha todos os requisitos para ser um homem feliz. Mas vivia só e deprimido.

   Quando se utiliza o operador embora (ainda que, apesar de (que) etc.), prevalece a orientação argumentativa do enunciado não introduzido pelo operador:

              Embora desconfiasse do amigo, nada deixava transparecer.
              O calor continuava insuportável, apesar da chuva que caiu o dia todo.

   explicação ou justificativa - quando se encadeia, sobre um primeiro ato de fala, outro ato que justifica ou explica o anterior:

             Não vá ainda, que tenho uma coisa importante para lhe dizer. (Justificativa)
             Deve ter faltado energia por muito tempo, pois a geladeira está totalmente descongelada. (Explicação)

   comprovação - em que, através de um novo ato de fala, acrescenta-se uma possível comprovação da asserção apresentada no primeiro:

             Encontrei seu namorado na festa, tanto que ele estava de tênis Adidas.

   conclusão - em que, por meio de operadores como portanto, logo, por conseguinte, pois etc., introduz-se um enunciado de valor conclusivo em relação a dois (ou mais) atos de fala anteriores que contêm as premissas, uma das quais, geralmente, permanece implícita, por tratar-se de algo que é voz geral, de consenso em dada cultura, ou, então, verdade universalmente aceita.

             Toda a equipe jogou desentrosada. Portanto (logo) o novo atacante não poderia mesmo ter mostrado o seu bom futebol.
             João é um indivíduo perigoso. Portanto, fique longe dele.

   comparação - expressa-se por meio dos operadores (tanto, tal) ...como (quanto), mais... (do) que,  menos... (do) que, estabelecendo entre um termo comparante e um termo comparado, uma relação de inferioridade, superioridade ou igualdade. A relação comparativa possui um caráter eminentemente argumentativo: a comparação se faz tendo em vista dada conclusão a favor ou contra a qual se pretende argumentar. Assim, se a uma pergunta como: "Devemos chamar Pedro para tirar a mala de cima do armário?", se obtivesse como resposta:

                   "João é tão alto quanto Pedro"

a resposta seria desfavorável a Pedro (embora não negando a sua altura) e favorável a João. Se, por outro lado, a resposta fosse:   
  
                   "Pedro é tão alto como João."

Haveria inversão da orientação argumentativa, agora favorável a Pedro.

   generalização/extensão - em que o segundo enunciado exprime uma generalização do fato contido no primeiro, ou uma amplificação da ideia nele expressa:

             Maria está atrasada. Aliás / Também / É verdade que...          , ela nunca chega na hora.
                                          
             Tive prazer em conhecê-la. De fato / Realmente...    , estou encantado.
                                                   

             Pedro está de novo sem dinheiro. Bem / Aliás / Mas ...  , é o que acontece com todo estudante que vive de mesada.
                                                                 

   especificação/exemplificação - em que o segundo enunciado particulariza e/ou exemplifica uma declaração de ordem mais geral apresentada no primeiro:

             Muitos de nossos colegas estão no exterior. Pierre, por exemplo, está na França.
             Nos países do Terceiro Mundo, como a Bolívia e o Brasil, falta saneamento básico em muitas regiões.


   contraste - na qual o segundo enunciado apresenta uma declaração que contrasta com a do primeiro, produzindo um efeito retórico:

             Gosto muito de esporte. Mas luta-livre, faça-me o favor!
             Os ricos ficam cada vez mais ricos, ao passo que os pobres tornam-se cada vez mais pobres.


   correção/redefinição - quando, através de um segundo enunciado, se corrige , suspende ou redefine o conteúdo do primeiro, se atenua ou reforça o comprometimento com a verdade do que nele foi veiculado ou, ainda, se questiona a própria legitimidade de sua enunciação:

                     Irei à sua festa. Isto é, se você me convidar.
                     Eu não agiria deste modo. Se você quer saber a minha opinião.
                     Meus parabéns! Ou não devo cumprimentá-lo por isso?
                     Pedro chega hoje. Ou melhor, acredito que chegue, não tenho certeza.
                     Ele não é muito esperto. De fato (Pelo contrário), parece-me bastante estúpido.
                     Prometo ir ao encontro. Isto é (Ou melhor), vou tentar.


BIBLIOGRAFIA

FÁVERO, Leonor Lopes. Coesão e coerência textuais. 8ª ed. são Paulo: Ática, 2000.
KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. 15ª ed. São Paulo: Contexto, 2001.
SIMÕES, Fátima: CARLOS, Kátia; RUMEU, Márcia. Redação I. CLAC: UFRJ, s/d.

Um comentário:

Ana Denise Rosa disse...

Muito bom conteúdo! Servirá de revisão para o plano estratégico que terei que aplicar aos meus alunos!