domingo, 6 de março de 2011

PARNASIANISMO


O nome da escola teve a sua origem em Paris e remonta a antologias publicadas a partir de 1866, sob o título de Parnasse Contemporain, que incluíam poemas de Gautier, Banville e Leconte de Lisle. Seus traços de relevo: o gosto da descrição nítida (a mimese pela mimese), concepções tradicionalistas sobre metro, ritmo e rima e, no fundo, o ideal da impessoalidade que partilhavam com os realistas do tempo. 

A origem da palavra Parnasianismo associa-se ao Parnaso grego, segundo a lenda um monte da Fócida, na Grécia Central, consagrado a Apolo e às musas. A escolha do nome já comprova o interesse dos parnasianos pela tradição clássica. Acreditavam que, apoiando-se nos modelos clássicos, estariam combatendo os exageros de emoção e fantasia do Romantismo e, ao mesmo tempo, garantindo o equilíbrio que tanto desejavam.

O primeiro livro parnasiano no Brasil foi Fanfarras, de 1882, publicado por Teófilo Dias, sobrinho de Gonçalves Dias. Contudo, as idéias parnasianas já vinham sendo difundidas no Brasil desde a década de 1870. No final dessa década travou-se no jornal Diário do Rio de Janeiro uma polêmica literária que reuniu, de um lado, os adeptos do Romantismo e, de outro, os seus adversários. O saldo da polêmica, que ficou conhecida como Batalha do Parnaso, foi a ampla divulgação das idéias do Realismo e do Parnasianismo nos meios artísticos e intelectuais do país. Manuel Bandeira, no entanto, chama a atenção para não se confundir o “Parnaso” relativo à polêmica com o termo parnasianismo. Segundo ele, “a batalha chamou-se do Parnaso porque os golpes se desfechavam em versos, quase sempre incorretos, na gramática e na metrificação, segundo os cânones parnasianos posteriores”. Dessa batalha tomaram parte Teófilo Dias, Artur Azevedo, Fontoura Xavier, Valentim Magalhães e Alberto de Oliveira.

O Parnasianismo foi a manifestação poética da época do Realismo, embora ideologicamente não mantenha todos os pontos de contato com os romancistas dessa escola. É a estética da “arte pela arte” ou da “arte sobre a arte”, com poetas à margem das grandes transformações do final do século XIX e início do XX. A nova estética se manifesta desde o final da década de 1870 até a Semana da Arte Moderna (embora, em alguns casos, tenha ultrapassado o ano de 1922).

A poética parnasiana, de postura antirromântica, baseava-se na objetividade no trato dos temas e no culto da forma. A objetividade temática surgiu como negação ao sentimentalismo romântico, numa tentativa de atingir a impassibilidade e a impessoalidade; a oposição ao subjetivismo decadente resultava numa poesia universalista, carregada de descrições objetivas e impessoais; a retomada do racionalismo e das formas perfeitas da Antiguidade Clássica fazia surgir uma poesia de meditação, filosófica, mas artificial.

O traço mais característico da poética parnasiana, contudo, é o culto da forma: a forma rixa representada pelos sonetos, a métrica dos versos alexandrinos (12 sílabas poéticas), os decassílabos impecáveis e a rima rica, rara e perfeita.

Os poetas mais expressivos, que formaram a “trindade parnasiana”, foram: Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac. Num plano inferior, encontramos B. Lopes, Augusto de Lima, Fontoura Xavier, Múcio Teixeira, Vicente de Carvalho e Francisca Júlia, seguidos de um grande número de poetas medianos.

Alberto de Oliveira


ALBERTO DE OLIVEIRA (1857-1937)

Embora tenha vivido 80 anos de profundas transformações políticas, econômicas e sociais, além de literárias, Alberto de Oliveira sempre permaneceu fiel ao Parnasianismo e à margem dos acontecimentos históricos. A partir de seu segundo livro, Meridionais, já segue as características parnasianas, sendo mesmo considerado mestre dessa estética, pois foi realmente o mais perfeito dos parnasianos. Sua temática restringiu-se aos rígidos ensinamentos da Escola: uma poesia descritiva que abrangia desde a natureza até meros objetos, exaltando-lhes a forma (como, por exemplo, os sonetos “Vaso grego”, “Vaso Chinês” e “A estátua”), uma impassibilidade por vezes traída pelos tons intimistas de alguns sonetos, o culto da arte pela arte e a exaltação da Antiguidade Clássica.

Em seus poemas, deve-se destacar a perfeição formal, a métrica rígida e a linguagem extremamente trabalhada, que às vezes chega ao rebuscamento.

Obras: Canções Românticas (1878), Meridionais (1884), Sonetos e Poemas (1885), Versos e Rimas (1895), Poesias (1900), Poesias, 2ª. série(1905), Poesias, 3ª. série (1913), Poesias, 4ª.série (1927), Poesias Escolhidas (1933), Póstuma (1944).




VASO GREGO     

Esta, de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada,
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.

Era o poeta de Teos(1) que a suspendia
Então e, ora repleta ora, esvazada,
A taça amiga aos dedos seus tinia
Toda de roxas pétalas colmada(2).

Depois... Mas o lavor da taça admira,
Toca-a, e, do ouvido aproximando-a, às bordas
Finas hás de lhe ouvir, canora e doce,

Ignota voz, qual se da antira lira
Fosse a encantada música das cordas,
Qual se essa a voz de Anacreonte.

(1) Poeta de Teos: referência a Anacreonte, poeta grego natural de Teos (séc. VI a.C.), famoso por suas canções de amor irônicas e melancólicas.
(2) colmada: coberta, cheia.


Raimundo Correia


RAIMUNDO CORREIA (1859-1911)

Raimundo Correia matriculou-se no Colégio Pedro II em 1872. Estudou Direito em São Paulo e foi magistrado em diversos estados brasileiros.

Sua poesia, dentro do movimento parnasiano, representa um momento de descontração e de investigação. Nela se verificam pelo menos três fases:

- a fase romântica: com influência de Casimiro de Abreu e Fagundes Varela, é representada por Primeiros sonhos (1879);

- a fase parnasiana propriamente dita: representada pelas obras Sinfonias (1883) e Versos e Versões (1887), é marcada pelo pessimismo de Schopenhauer – pensador alemão que defendia a ideia de que todas as dores e males do mundo provêm da vontade de viver – e por reflexões de ordem moral e social:

- a fase pré-simbolista: nela, o pessimismo diante da condição humana busca refúgio na metafísica e na religião, enquanto a linguagem apresenta uma pesquisa em musicalidade e sinestesia. 

Obras: Primeiros Sonhos (1879), Sinfonias (1883), Versos e versões (1887), Poesias (1898).


AS POMBAS                                                                  

Vai-se a primeira pomba despertada...                           
Vai-se outra mais...  mais outra...  enfim dezenas           
De pombas vão-se dos pombais, apenas                      
Raia sanguínea e fresca a madrugada...                         

E à tarde, quando a rígida nortada                                 
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,                 
Ruflando as asas, sacudindo as penas,                          
Voltam todas em bando e em revoada...                       

Também dos corações onde abotoam,                         
Os sonhos, um por um, céleres voam,                           
Como voam as pombas dos pombais;                          

No azul da adolescência as asas soltam,                        
Fogem...  Mas aos pombais as pombas voltam,             
E eles aos corações não voltam mais.       


                     


A CAVALGADA

A lua banha a solitária estrada..
Silêncio!... mas além confuso e brando,
O som longínquo vem-se aproximando
Do galopar de estranha cavalgada. 

São fidalgos que voltam da caçada; 
Vêm alegres, vêm rindo, vêm cantando,
E as trompas a soar vão agitando
O remanso da noite embalsamada...

E o bosque estala, move-se, estremece...  
Da cavalgada o estrépito que aumenta
Perde-se após no centro da montanha...

E o silêncio outra vez soturno desce,
E límpida, sem mácula, alvacenta
A lua a estrada solitária banha...


PLENILÚNIO

Além nos ares, tremulamente,
Que visão branca das nuvens vai!
Luz entre as franças, fria e silente;
Assim nos ares, tremulamente,
Balão aceso subindo vai...


Há tantos olhos nela arroubados,
No magnetismo do seu fulgor!
Lua dos tristes e enamorados,
Golfão de cismas fascinador

Astro dos loucos, sol da demência,
Vaga, noctâmbula aparição!
Quantos, bebendo-te a refulgência,
Quantos por isso, sol da demência,
Lua dos loucos, loucos estão.

Quantos à noite, de alva sereia
O falaz canto na febre a ouvir,
No argênteo fluxo da lua cheia,
Alucinados se deixam ir...

Também outrora, num mar de lua,
Voguei na esteira de um louco ideal:
Exposta aos euros a fronte nua,
Dei-me ao relento, num mar de lua,
Banhos de lua que fazem mal.

Ah! Quantas vezes, absorto nela,
Por horas mortas postar-me vim
Cogitabundo, triste, à janela,
Tardas vigílias passando assim!

E assim, fitando-a noites inteiras,
Seu disco argênteo n’alma imprimi;
Olhos pisados, fundas olheiras,
Passei fitando-a noite inteiras,
Fitei-a tanto, que enlouqueci!

Tantos serenos tão doentios,
Friagens tantas padeci eu;
Chuva de raios de prata fios
A fronte em brasa me arrefeceu!

Lunárias flores, ao feral lume,
– Caçoilas de ópio, de embriaguez –
Evaporavam letal perfume...
E os lençóis d’água, do feral lume
Se amortalhavam na lividez...

Fúlgida névoa vem-me ofuscante
De um pesadelo de luz encher,
E a tudo em roda, desde esse instante,
Da cor da lua começo a ver.

E erguem por vias enluaradas
Minhas sandálias chispas a flux...
Há pó de estrelas pelas estradas...
E por estradas enluaradas
Eu sigo às tontas, cego de luz...

Um luar amplo me inunda, e eu ando
Em visionária lua a nadar,
Por toda parte, louco arrastando
O largo manto do meu luar...


Olavo Bilac


OLAVO BILAC  (1865-1918)

Nasceu no Rio de Janeiro, estudou Medicina e Direito, mas não concluiu nenhum desses cursos. Exerceu as atividades de jornalista e inspetor escolar, tendo devotado boa parte de seu trabalho e de seus escritos à educação. Foi defensor da instrução primária, da educação física e do serviço militar obrigatório. Patriota, escreveu a letra do Hino à Bandeira e dedicou-se a temas de caráter histórico-nacionalista.

Olavo Bilac é o único dos grandes parnasianos que já iniciou comungando com a estética do movimento: desde o princípio buscou a perfeição formal. Tinha a preocupação de escrever versos metrificados (decassílabos ou alexandrinos) e concluir com “chave de ouro” (o remate da poesia, sempre com um belo efeito), mesmo que para isso assumisse um tom forçado. Ao lado disse, valia-se de uma linguagem elaborada, com constantes inversões da estrutura gramatical, que resultava num efeito poético bastante rico para os padrões parnasianos. 

Neste literato de veia fácil, eleito o primeiro “príncipe dos poetas brasileiros”, potencia-se a tendência parnasiana de cifrar no brilho da frase isolada e na chave de ouro de um soneto a mensagem de toda a poesia.

Hoje parece consenso da melhor crítica reconhecer em Bilac não um grande poeta, mas um poeta eloquente, capaz de dizer com fluência as coisas mais díspares, que o tocam de leve, mas o bastante para se fazerem, em suas mãos, literatura.

A obsessão do efeito (sempre relativo ao sistema de valores estéticos do tempo) leva o poeta pela mão através de toda a sua obra e vai marcar os seus pontos altos mas também os seus limites. Bilac supre a carência de uma real fantasia artística e de um sentimento fundo da condição humana com o intenso brilho descritivo, que conserva graças a um jogo hábil de sensações e impressões. A sua melodia, embora linear, não chega a cair na banalidade, seu risco permanente. Não escapa, entretanto, à sorte de toda poesia acadêmica: é iterativa, amplificadora.

Os temas que versou com mais assiduidade, como a beleza física da mulher, os amplos cenários, os momentos épicos da história nacional, ajustavam-se bem a esse traço exterior e retórico do seu modo de ser artístico; e deram-lhe leitores fiéis que representavam o gosto das gerações resistentes ao impacto modernista.

Do ponto de vista ideológico, foi o poeta que melhor exprimiu as tendências conservadoras vigentes depois do interregno florianista. À política renovadora que animara alguns fautores da República seguiu-se um meufanismo estático e vazio, amante da tradição pela tradição considerada em si mesma como beleza. Bilac, poeta dos nautas portugueses em Sagres e dos bandeirantes no “Caçador de Esmeraldas”, será também o cantor cívico da bandeira, das armas nacionais e o didata hosanante das Poesias Infantis.

Obras: Poesias (1888), Poesias Infantis (1904), Crítica e Fantasia (1906), Conferências Literárias (1906), Ironia e Piedade (1916), A Defesa Nacional (1917), Tarde (1919), Tratado de Versificação [em colaboração com Guimarães Passos] (1910); Dicionário de Rimas (1913).




PROFISSÃO DE FÉ - fragmento

            Le poete est ciseleur
            Le ciseleur est poète
                          
                               Vítor Hugo

[...]

Invejo o ourives quando escrevo:                      
        Imito o amor                                                       
Com que ele, em ouro, o alto-relevo                 
        Faz de uma flor.                                                  

Imito-o. E, pois nem de Carrara                         
        A pedra firo:                                                       
O alvo cristal, a pedra rara,                                
        O ônix prefiro.                                                    

Por isso, corre, por servir-me,                          
        Sobre o papel                                                      
A pena, como em prata firme                           
        Corre o cinzel.                                                    

Corre; desenha, enfeita a imagem,                  
        A ideia  veste:                                                     
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem
        Azul-celeste.                                                      

Torce, aprimora, alteia, lima                             
        A frase; e, enfim,                                               
No verso de ouro engasta a rima,                      
       Como um rubim.  
                                              
Quero que a estrofe cristalina,
        Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
        Sem um defeito.

E que o lavor do verso, acaso,
        Por tão sutil,
Possa o lavor lembrar de um vaso
        De Becerril.

E horas sem conta passo, mudo,                                      
        O olhar atento,
A trabalhar, longe de tudo
        O pensamento.

Porque o escrever – tanta perícia
        Tanta requer,
Que ofício tal... nem há notícia
        De outro qualquer.

Assim procedo. Minha pena
        Segue esta norma,
Por te servir, Deusa serena,
        Serena Forma!

[...]



VIA LÁCTEA

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” Eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”


A UM POETA                                                                 

Longe do estéril turbilhão da rua,                            
Beneditino, escreve! No aconchego                          
Do claustro, na paciência e no sossego,                    
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!                   

Mas que na forma se disfarce o emprego                 
Do esforço; e a trama viva se construa                     
De tal modo, que a imagem fique nua,                     
Rica mas sóbria, como um tempo grego.                   

Não se mostre na fábrica o suplício                          
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,                      
Sem lembrar os andaimes do edifício:                    

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,                       
Arte pura, inimiga do artifício,                                   
É a força e a graça na simplicidade.                          


NEL MEZZO DEL CAMIN... 


Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha.


E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.


Hoje, segues de novo...  Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.


E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.


LÍNGUA PORTUGUESA

Última flor do Lácio, inculta e bela,                        
És, a um tempo, esplendor e sepultura:               
Ouro nativo, que na ganga impura                         
A bruta mina entre os cascalhos vela...
                                                                           
Amo-te assim, desconhecida e obscura,               
Tuba de alto clangor, lira singela,                          
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,


Emque da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
















TEXTOS DE APOIO

RAIMUNDO CORREIA – José Antônio Cavalcanti *

O maranhense Raimundo Correia (1859-1911) foi um dos poetas mais populares de seu tempo. Hoje, após tantas escolas e tanta modificação da sensibilidade do leitor de poesia, é um autor que já não circula com a intensidade de outrora. Com um trajeto que vai do romantismo ao simbolismo, o autor de “As pombas” e “Mal secreto”, sonetos decorados por gerações, é inequivocamente um dos nossos maiores poetas.

O poeta sofreu muito com as acusações de plágio. Para muitos, “As pombas” é cópia de um trecho em prosa de Theóphile Gautier em Mademoiselle de Maupin; “Mal secreto” é plágio de uma oitava de Metastásio; o soneto “O vinho de Hebe”, plágio de composição de Mme. Ackermann (acusação que me parece injusta, pois o próprio Raimundo Correia em nota à edição de Poesias, uma seleção daqueles que considerou seus melhores trabalhos, afirma que aproveitou ideia contida em um dos sonetos de Mme. de Ackermann, mas não fez tradução nem paráfrase). Para mim, as acusações são infundadas, os seus formuladores parecem ignorar o diálogo entre as literaturas, as trocas enriquecedoras, além de confundirem apropriação de temas com realização poética. Os versos de Raimundo Correia só são possíveis em língua portuguesa, não importa a origem dos temas, e foram construídos com indiscutível maestria. Mais ainda: revelam um poeta culto, antenado com o que se produzia à sua época. Essa mesma concepção estreita de ver nas apropriações realizadas por criadores sobre criações alheias uma forma de plágio reduziria o sonetista Camões a um mero plagiário de Petrarca (nem Shakespeare escaparia). Basta o verso antológico “Raia sanguínea e fresca a madrugada...”, de “As pombas”, para dar a dimensão da grandeza da obra de Raimundo Correia.

Sobre um dos poemas publicados, afirmou Manuel Bandeira, em “Raimundo Correia e o seu sortilégio verbal”:

“Foi a propósito de ‘Plenilúnio’ que Lêdo Ivo criou o neologismo ‘lunaridade’ para denominar aquela encantação vocabular que faz da poesia outro idioma dentro de cada idioma. Realmente, não conheço em língua nenhuma, viva ou morta, exemplo mais cabal de lunaridade que esse poema, que exalta até as raias da loucura o sentimento de vigília noturna. Desde a terceira estrofe atinge ele as supremas paragens da visionária demência.”

* Extraído do blog POEMARGENS – http://poemargens.blogspot.com.

À SOMBRA DO PARNASO – Alexei Bueno *

Reagindo à subjetividade romântica e ao pouco cuidado formal da escola, chega o Parnasianismo ao Brasil pelo influxo de Gautier, Banville, Sully-Prudhomme, Leconte de Lisle, Cattule Mendès. De início, tal tendência foi conhecida como “poesia realista”, mas em pouco o rótulo de parnasiano tomou seu lugar. O vate se transforma em joalheiro, o “Vidente”, como no poema de Castro Alves, faz-se ourives, o ourives da “Profissão de fé” que abre as Poesias de Bilac, quase pastiche do Théophile Gautier de Émaux et camées. O modelo ideal da escola são as artes plásticas, em especial a escultura, totalmente oposta ao “de la musique avant toute chose”, de Verlaine e dos simbolistas. E sobre isso vale a pena recordar a brilhante afirmação de Ezra Pound de que toda vez que se afasta da música a poesia decai. O poeta parnasiano é, portanto, escultor, quando não, descendo mais baixo, joalheiro, e é igualmente realista, impassível, e, como neoclássico, um amante da Antiguidade, da Grécia e dos deuses, uma Grécia de cenário, uns deuses de carnaval, pois o verdadeiro sentimento da Grécia ou do paganismo é o que encontramos em Hölderlin ou em um Ricardo Reis-Fernando Pessoa, não em Alberto de Oliveira ou, descendo mais, Jorge Jobim. Se insistimos na crítica ideológica dessa escola, apesar dos grandes poemas que produziu, é pelo fato de ela ter, por décadas e décadas, e, de certo modo, até hoje, encoberto a mais alta poesia sua contemporânea no Brasil, a do Simbolismo. Houve uma célebre “Trindade Parnasiana”: Raimundo Correia, Alberto de Oliveira e Olavo Bilac. Todos foram bafejados pela glória e pela popularidade em vida, todos foram fundadores da Academia Brasileira de Letras e viveram folgadamente. Enquanto isso, afirmamos nós, havia uma “Trindade Simbolista”: Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens e Augusto dos Anjos, este em uma vertente expressionista da escola. O primeiro, que além de tudo era negro, morreu, com a mulher e os quatro filhos, literalmente de fome. O segundo, que além de tudo era um místico, passou a vida em terríveis dificuldades financeiras no degredo de Mariana, sem conseguir publicar seus livros, esquecido do mundo e dos homens. O terceiro, que além de tudo encarava a realidade nacional e a descrevia de forma trágica, morreu aos trinta anos, sendo por décadas e décadas tratado pela crítica como degenerado ou poeta para fuzileiros navais, ou, como afirmou sinteticamente Silveira Bueno, um “caso de teratologia literária”. E antes e depois desses três monstros da poesia brasileira, ele, o Parnasianismo, perseverou, por assim dizer, como o braço poético oficial de uma república positivista e laica, de uma Belle Époque cética e risonha, que se negava totalmente a ver a realidade do país e do povo, até o surgimento de gigantes morais como Euclides da Cunha e Manuel Bonfim. Para confirmar isso, basta ler as incríveis crônicas de Bilac, pedindo o massacre impiedoso dos jagunços de Canudos. Ou a famosa carta de Joaquim Nabuco – no entanto autor, antes de se transformar em demi-mondain, do admirável O abolicionismo – em que ataca José Veríssimo por ter chamado o recém-falecido Machado de Assis de mulato, pois como branco o considerada.
[...]
Pela terceira vez, com o Parnasianismo, o formalismo artificial tomava conta da poesia no Brasil. A primeira fora com o Gongorismo do gênero Fênix Renascida, a segunda com o Arcadismo, com as suas pastoras e pastores nesta Arcádia canicular quase africana. A terceira foi no próprio Parnasianismo, com as suas Frineias e Messalinas da Rua da Quitanda.

* Extraído de Uma história da poesia brasileira. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2007, p.151-152.

Referências bibliográficas

BANDEIRA, Manuel. Apresentação da poesia brasileira. São Paulo: Cosac Naify, 2009.
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 33ª. ed. São Paulo: Cultrix, 1995.
BUENO, Alexei. Uma história da poesia brasileira. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2007.
CAVALCANTI, José Antônio. “Raimundo Correia”. In http://poemargens.blogspot.com.

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