quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O Simbolismo no Brasil


 


                        
Nas últimas décadas do século XIX, em meio à onda de cientificismo e materialismo que deu origem ao Realismo e ao Naturalismo, surge um grupo de artistas e intelectuais que põem em dúvida a capacidade absoluta da ciência de explicar todos os fenômenos relacionados ao homem. Não creem no conhecimento “positivo” e no progresso social prometidos pela ciência.

Pensam que, assim como a ciência, a linguagem é limitada. A primeira, para traduzir a complexidade humana, a segunda, para representar a realidade como ela de fato é, podendo, no máximo, sugeri-la.

Tanto o Simbolismo francês quanto o Simbolismo brasileiro foram fortemente influenciados pela obra de Charles Baudelaire (1821-1867), poeta pós-romântico considerado o precursor do movimento simbolista.


CARACTERÍSTICAS DO SIMBOLISMO

Ø  Subjetivismo
Ø  Linguagem vaga, fluida, que busca sugerir em vez de nomear
Ø  Abundância de metáforas, comparações, aliterações, assonâncias e sinestesias.
Ø  Cultivo do soneto e de ouras formas de composição poética.
Ø  Antimaterialismo, antirracionalismo.
Ø  Misticismo, religiosidade.
Ø  Interesse pelas zonas profundas da mente humana e pela loucura.
Ø  Pessimismo, dor de existir.
Ø  Interesse pelo noturno, pelo mistério e pela morte.
Ø  Retomada de elementos da tradição romântica.


CONTEXTO HISTÓRICO

Simbolismo e decadentismo

A poesia universal é toda ela na essência simbólica.Os símbolos povoam a literatura desde sempre. [...] Todavia, ao longo da década de 1890, desenvolveu-se em França um movimento estético a princípio apelidado “decadentismo” e depois “Simbolismo”. Por muitos aspectos ligados ao Romantismo e tendo tido berço comum com o Parnasianismo, o Simbolismo gerou-se como uma reação conta a fórmula estética parnasiana, que dominara a cena literária durante a década de 1870, ao lado do Realismo e do Naturalismo, defendendo o impessoal, o objetivo, o gosto do detalhe e da precisa representação da natureza [...].

Posto não constituísse uma unidade de métodos, antes de ideais, o Simbolismo procurou instalar um credo estético baseado no subjetivo, no pessoal, na sugestão e no vago, no misterioso e no ilógico, na expressão indireta e simbólica. Como pregava Mallarmé, não se devia dar nome ao objeto, nem mostrá-lo diretamente, mas sugeri-lo, evoca-lo pouco a pouco, processo encantatório que caracteriza o símbolo.

[...] Por volta de 1880, espalha-se a ideia de decadência, caracterizada por Paul Bourget em um artigo em que ele identifica o estado de decadência com Baudelaire, místico, libertino e analisador, típico de uma série de indivíduos “incapazes de encontrar seu lugar próprio no trabalho do mundo”, lúcidos para com “a incurável máscara de seu destino”, pessimistas e individualistas extremos, querendo submeter o mundo às suas necessidades íntimas, e sentindo a época como de crise e enfado, fadiga e degenerescência, dissolução e má consciência.

(Afrânio Coutinho. Introdução à literatura no Brasil. 10ª Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980. p. 214-5)

Os excluídos

A origem da tendência mística e espiritualista que fundamenta o Simbolismo situa-se em camadas da sociedade – setores da aristocracia decadente e da classe média – que ficaram à margem do processo de avanço tecnológico e científico do capitalismo do século XIX e da solidificação da burguesia no poder. Não tocados pela euforia do progresso material, da mercadoria e do objeto, esses grupos encontraram na proposta da volta da supremacia do sujeito sobre o objeto um modo de rejeitar o desmedido valor dado ao materialismo cientificista.

O Simbolismo e o tédio da civilização moderna

Ao mesmo tempo, em íntima relação com o movimento dos parnasianos, o culto da sensação evolui de outra maneira bem mais interessante; alguns poetas, experimentando conhecidas ou pelo menos inexpressas sensações, sugeridas amiúde pelo tédio da civilização moderna e pelo seu sentimento de expatriação no seio dela, e não encontrando mais, nas formas usuais de linguagem poética, instrumentos capazes de satisfazer sua vontade de expressão, começavam a modificar profundamente a função da palavra em poesia. Essa função é dupla, e o que foi em todos os tempos: em poesia, a palavra não é somente o instrumento da compreensão racional, tem outrossim o poder de evocar sensações.

(Erich Auerbach. Introdução aos estudos literários. 2ª. ed. São Paulo: Cultrix, 1972. p. 240-1)

Simbolismo: reação ao racionalismo

Visto à luz da cultura europeia, o Simbolismo reage às correntes analíticas dos meados do século XIX, assim como o Romantismo reagira à Ilustração [...]. Ambos os movimentos exprimem o desgosto das soluções racionalistas e mecânicas e nestas reconhecem o correlato da burguesia industrial em ascensão; ambos recusam-se a limitar a arte ao objeto, à técnica de produzi-lo, a seu aspecto palpável; ambos, enfim, esperam ir além do empírico e tocar, com a sonda da poesia, um fundo comum que susteria os fenômenos, chame-se Natureza, Absoluto, Deus ou Nada.

(Alfredo Bosi. História concisa da literatura brasileira. 2ª. Ed. São Paulo: Cultrix, 1975. p. 293)

Os malditos

A concepção da realidade e da arte adotada pelos simbolistas suscitou reações entre setores positivistas da sociedade. Chamados de malditos ou decadentes, os simbolistas ignoravam a opinião pública, desprezavam o prestígio social e literário, fechando=se numa quase religião da palavra e suas capacidades expressivas.

O Simbolismo – com as propostas de inovação, oposição e pesquisa apresentadas pela geração de Verlaine, Rimbaud e Mallarmé – não sobreviveria por muito tempo. O mundo presenciava a euforia capitalista, o avanço científico e tecnológico. A burguesia vivia a belle époque, um período de prosperidade, de acumulação e de prazeres materiais que só terminaria com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914.

Nesse contexto, o Simbolismo logo desapareceu. Mas deixou ao mundo um alerta sobre o mal-estar trazido pela civilização moderna e industrializada, além de códigos literários novos, que abririam campo para as correntes artísticas do século XX, principalmente o Expressionismo e o Surrealismo, também preocupados com a expressão e com as zonas inexploradas da mente humana, como o inconsciente e a loucura.

O SIMBOLISMO NO BRASIL

As primeiras manifestações simbolistas já eram sentidas desde o final da década de 80 do século XIX. Apesar disso, tem-se apontado como marco introdutório do movimento simbolista brasileiro a publicação, em 1893, das obras Missal (prosa) e Broquéis (poesia), de nosso maior autor simbolista: Cruz e Sousa.

CRUZ E SOUSA

Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Florianópolis, Santa Catarina. Filho de escravos, foi amparado por uma família aristocrática, que o ajudou nos estudos. Com a morte do protetor, abandona os estudos e começa a trabalhar na imprensa catarinense, escrevendo crônicas abolicionistas e participando diretamente de campanhas em favor da causa negra. Ele próprio mais de uma vez fora vítima de preconceito racial. Em 1890, transfere-se para o Rio de Janeiro, onde sobrevive trabalhando em vários empregos. Depois de ter tido na juventude uma grande desilusão amorosa, ao apaixonar-se por uma artista branca, casa-se com Gavita, uma negra que, anos depois, manifesta problemas mentais. Dos quatro filhos que o casal teve, apenas dois sobrevivem. Cruz e Sousa morre aos 36 anos, vítima de tuberculose. Suas únicas obras publicadas em vida são Missal e Broquéis.

Hoje, Cruz e Sousa é considerado o mais importante poeta simbolistas brasileiro e um dos maiores poetas nacionais de todos os tempos. Contudo, o escritor só teve seu valor reconhecido postumamente, depois que o sociólogo francês Roger Bastide o colocou entre os maiores poetas do simbolismo universal.

Sua obra poética apresenta diversidade e riqueza. De um lado, encontram-se nela aspectos noturnos do Simbolismo, herdados do Romantismo: o culto da noite, certo satanismo, o pessimismo, a morte. De outro lado, há certa preocupação formal, que aproxima Cruz e Sousa dos parnasianos: a forma lapidar, o gosto pelo soneto, o verbalismo requintado, a força das imagens; há, ainda, a inclinação à poesia metafísica e filosófica, que o aproxima da poesia realista portuguesa, principalmente de Antero de Quental.

A poesia metafísica e a dor de existir

Juntamente com o poeta realista português Antero de Quental e o pré-modernista brasileiro Augusto dos Anjos, Cruz e Sousa apresenta uma das poéticas de maior profundidade em língua portuguesa, em razão da investigação filosófica e da angústia metafísica presentes nas suas composições.

Na obra de Cruz e Sousa, o drama da existência revela uma provável influência das ideias pessimistas do filósofo alemão Schopenhauer, que marcaram o final do século XIX. Além disso, certas posturas verificadas em sua poesia – o desejo de fugir da realidade, de transcender a matéria e integra-se espiritualmente no cosmo- parecem originar-se não apenas do sentimento de opressão e mal-estar produzido pelo capitalismo, mas também do drama racial e pessoal que o autor vivia.

A trajetória da obra de Cruz e Sousa parte da consciência e da dor de ser negro, em Broquéis, e chega à dor de ser homem, em Faróis e Últimos sonetos, obras póstumas nas quais sobressai a busca da transcendência. 

As características mais importantes da poesia de Cruz e Sousa são:

Ø  No plano temática: a morte, a transcendência espiritual, a integração cósmica, o mistério, o sagrado, o conflito entre matéria e espírito, a angústia e a sublimação sexual, a escravidão e uma verdadeira obsessão por brilhos e pela cor branca;

Ø  No plano formal: as sinestesias, as imagens surpreendentes, a sonoridade das palavras, a predominância de substantivos e o emprego de maiúsculas, utilizadas com a finalidade de dar um valor absoluto a certos termos.





POEMAS DE CRUZ E SOUSA



 



MONJA

Ó Lua, Lua triste, amargurada,
fantasma de brancuras vaporosas,
a tua nívea luz ciliciada
faz murchecer e congelar as rosas.

Nas flóridas searas ondulosas,
cuja folhagem brilha fosforeada,
passam sombras angélicas, nivosas,
lua, Monja da cela constelada.

Filtros dormentes dão aos lagos quietos,
ao mar, ao campo, os sonhos mais secretos,
que vão pelo ar, noctâmbulos, pairando...

Então, ó Monja branca dos espaços,
parece que abres para mim os braços,
fria, de joelhos, trêmula, rezando...

(Cruz e Sousa. Poesia completa, pp. 8-9)




 
 ACROBATA DA DOR


Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! Reteza os músculos, reteza
nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.
 
(Cruz e Sousa, Poesia completa, p 29)





ESCRAVOCRATAS


Oh! trânsfugas do bem que sob o manto régio
manhosos, agachados ― bem como um crocodilo,
viveis sensualmente à luz dum privilégio
na pose bestial dum cágado tranqüilo.

Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
ardentes do olhar ― formando uma vergasta
dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
e vibro-vos à espinha ― enquanto o grande basta

O basta gigantesco, imenso extraordinário ―
da branca consciência ― o rútilo sacrário
no tímpano do ouvido ― audaz me não soar.

Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
vermelho, colossal, d'estrépito, gongórico,
castrar-vos como um touro — ouvindo-vos urrar!

(Cruz e Sousa, Poesia completa, p. 163)





ANTÍFONA


Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
de luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...

Formas do Amor, constelarmente puras,
de Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
e dolências de lírios e de rosas...

Indefiníveis músicas supremas,
harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...

Visões, salmos e cânticos serenos,
surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
sutis e suaves, mórbidos, radiante...

Infinitos espíritos dispersos,
inefáveis, edênicos, aéreos,
fecundai o Mistério destes versos
com a chama ideal de todos os mistérios.

Do Sonho as mais azuis diafaneidades
que fuljam, que na Estrofe se levantem
e as emoções, todas as castidades
da alma do Verso, pelos versos cantem.

Que o pólen de ouro dos mais finos astros
fecunde e inflame a rima clara e ardente...
Que brilhe a correção dos alabastros
sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça
de carnes de mulher, delicadezas...
Todo esse eflúvio que por ondas passa
do Éter nas róseas e áureas correntezas...

Cristais diluídos de clarões álacres,
desejos, vibrações, ânsias, alentos,
fulvas vitórias, triunfamentos acres,
os mais estranhos estremecimentos...

Flores negras do tédio e flores vagas
de amores vãos, tantálicos, doentios...
Fundas vermelhidões de velhas chagas
em sangue, abertas, escorrendo em rios...

Tudo! Vivo e nervoso e quente e forte,
nos turbilhões quiméricos do Sonho,
passe, cantando, ante o perfil medonho
e o tropel cabalístico da Morte.

(pp. 5-6)



ALPHONSUS DE GUIMARAENS (1870-1921)


No livro Apresentação da poesia brasileira, Manuel Bandeira apresenta alguns dados biográficos sobre o autor. “Seu nome completo era Afonso Henrique da Costa Guimarães e nasceu em Ouro Preto. A latinização do prenome data de 94 e talvez indicava, com o desejo de fugir à vulgaridade, uma intenção mística nesse poeta que tinha o gosto dos hinos latinos da Igreja e traduziu em versos o “Tantum ergo” e o “Magnificat”. 

Aos dezessete anos o falecimento de uma prima amada (Constança) e de quem se considerava noivo encheu-o para sempre da obsessão da morte. Frequentou durante dois anos a Faculdade de Direito de São Paulo, a que mais tarde voltará afim de concluir o último ano do curo, em 94. Antes de regressar à província natal, visita o Rio, especialmente para conhecer Cruz e Sousa. Serviu como promotor de justiça e juiz substituto na comarca de Conceição do Serro e em 1906 foi nomeado juiz municipal de Mariana. Nessa quase morta cidadezinha mineira que parece dormir “no seio branco das litania” viveu o poeta até morrer, e nas dificuldades de um lar pobre onde os filhos chegaram a ser quatorze, sem outros consolos senão o carinho da família, a sua fé católica e a realização dos seus poemas, todos impregnados de unção cristã” (p. 132).

Qfvuase toda voltada para o tema da morte da mulher amada. Todos os outros temas que explorou, como natureza, arte e religião, estão de alguma forma relacionados àquele.

A exploração do tema da morte abre ao poeta, por um lado, o vasto campo da literatura gótica ou macabra dos escritores ultrarromânticos, recuperada por alguns simbolistas; por outro lado, possibilita a criação de uma atmosfera mística e litúrgica, em que abundam referências ao corpo morto, ao esquife, às orações, às cores roxa e negra, ao sepultamento, conforme exemplifica a estrofe a seguir:

         Mãos de finada, aquelas mãos de neve,
         De tons marfíneos, de ossatura rica,
         Pairando no ar, num gesto brando e leve,
         Que parece ordenar mas que suplica.

O conjunto da poesia de Alphonsus de Guimaraens é uniforme e equilibrado. Temas e formas se repetem e se aprofundam no decorrer de quase trinta anos de produção literária, consolidando uma de nossas poéticas mais místicas e espiritualistas.

O crítico Alfredo Bosi considera que “de Cruz e Sousa para Alphonsus de Guimaraens sentimos uma descida de tom”; isso porque a universalidade, a dor da existência e as sensações de voo e vertigem que caracterizam a linguagem simbolista de Cruz e Sousa ganham limites mais estreitos na poesia de Alphonsus de Guimaraens, presa ao ambiente místico da cidade de Mariana e ao drama sentimental vivido na adolescência.

Formalmente o poeta revela influências árcades e renascentistas, sem, contudo, cair no formalismo parnasiano. Embora preferisse o verso decassílabo, Alphonsus chegou a explorar outras métricas, particularmente a rendondilha maior, de longa tradição popular, medieval e românica.





POEMAS DE ALPHONSUS GUIMARAENS




ISMÁLIA

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

 
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

 
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

 
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

 
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de para em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar... 

(Pastoral aos crentes do amor e da morte. In: Cantos de amor, salmos de prece. Rio de Janeiro, J. Aguilar; Brasília, INL, 1972, p. 144. Essa edição é uma antologia organizada por Alphonsus de Guimaraens Filho.)





 
SONETO XIX

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão: - “Ai! nada somos,
Pois ela se morreu, silente e fria...”
E pondo nela os olhos como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: “Por que não vieram juntos?”


(In Cantos de amor, salmos de prece. Rio de Janeiro, J. Aguilar; Brasília, INL, 1972, p. 150.)





 
A CATEDRAL

Entre brumas, ao longe, surge a aurora.
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
Agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece, na paz do céu risonho,
Toda branca de sol.

E o sino canta em lúgubres responsos:
“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”

O astro glorioso segue a eterna estrada.
Uma áurea seta lhe cintila em cada
Refulgente raio de luz.
A catedral ebúrnea do meu sonho,
Onde os meus olhos tão cansados ponho,
Recebe a bênção de Jesus.

E o sino clama em lúgubres responsos:
“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”

Por entre lírios e lilases desce
A tarde esquiva: amargurada prece
Põe-se a lua a rezar.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece, na paz do céu tristonho,
Toda branca de luar.

E o sino chora em lúgubres responsos:
“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”

O céu é todo trevas: o vento uiva.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Vem açoitar o rosto meu.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
Como um astro que já morreu.

E o sino geme em lúgubres responsos:
“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”


( In  Cantos de amor, salmos de prece. Rio de Janeiro, J. Aguilar; Brasília, INL, 1972, p.  158)


FIQUE DE OLHO NAS SEGUINTES FIGURAS DE LINGUAGEM

ALITERAÇÃO- Designa a repetição de um som consonantal no interior de um versoo.
Ex.:      Vozes veladas, veludosas vozes,
            Volúpia dos violões, vozes veladas,
            Vagam nos velhos vórtices velozes
            Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

ASSONÂNCIA - Designa a repetição de um ou mais vogais no interior de um verso.
Ex.: E temo, e temo tudo, e nem sei o que temo

SINESTESIA – Designa a transferência de percepção de um sentido para outro, isto é, a fusão, num só ato perceptivo, de dois sentidos ou mais. Assim “ruído áspero” denota o congraçamento da audição e do tacto.


BIBLIOGRAFIA

AUERBACH, Erich. Introdução aos estudos literários. 4ª. ed. São Paulo: Cultrix, 1987.
BANDEIRA, Manuel. Apresentação da poesia brasileira. São Paulo: Cosac Naify, 2009.
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 33ª. ed. São Paulo: Cultrix,1995.
BUENO, Alexei. Uma história da poesia brasileira. Rio de janeiro: Germakoff, 2007.
CEREJA, William Roberto. Português: linguagens: volume 2: ensino médio. 5ª. ed. SãoPaulo: Atual, 2005.
COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. 10ª. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,    
     1980.
CRUZ E SOUSA, João da. Poesias completas. Florianópolis: Fundação Catarinense deCultura, 1981.
GODOFREDO DE OLIVEIRA, Neto. Cruz e Sousa: o poeta alforriado. Rio de Janeiro: Garamond, 2010.
GUIMARAENS, Alphonsus de. Cantos de amor, salmos de prece (poemas escolhidos).Rio de Janeiro:      José Aguilar; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1972.
MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. 12ª. ed, rev. e ampl. São Paulo: Cultrix, 2004.

2 comentários:

Anônimo disse...

muito bom esse conteudo gostei muito ele é muito interessante e apresenta a historia do que aconteceu aqui no brasil no século XIX e no simbolismo

Anônimo disse...

atraves de textos como esse temos a possibilidade de saber o que realmente aconteceu naquela epoca e aprender do que se trata osimboilismo conhecendo assim grandes poetas como cruz e souza! o melhor entre os simbolistas poetas e que nos traz ma linguagem diferenciada da comun.